terça-feira, 25 de março de 2008

Quem foi José bonifácio?

Para a maioria dos brasileiros José Bonifácio é o patriarca da independência, estadista e político. No entanto essa é uma fase de sua vida que começou em 1821 quando já tinha 57 anos e após ter tido contato com a Europa permeada pelas idéias liberais da Revolução Francesa. A sua face científica é praticamente desconhecida dos brasileiros, mas é conhecida pelos pesquisadores europeus. Pode ser considerado o fundador da Marinha brasileira, o primeiro a propor um projeto de Universidade no Brasil e o patrono da Geologia e da Mineralogia em nosso país.
Como Bartholomeu de Gusmão, José Bonifácio também nasceu em Santos. Era filho do Capitão José Ribeiro d’Andrada e Maria Bárbara da Silva. Iniciou seus estudos em humanidades aos 14 anos no Colégio dos Padres em São Paulo, fundado pelo Bispo D. Manuel da Ressurreição. De 1780 até 1783 estudou no Rio de Janeiro, onde seu talento literário começou a se manifestar. Seus pais enviam-no então para Portugal, onde se matriculou na Universidade de Coimbra nos cursos de Direito e Filosofia Natural, formando-se em 1787. José Bonifácio era descendente de linhagem nobre e teve como incentivador o Duque de Lafões que o conduziu à Academia Real de Ciências, em Lisboa, onde foi admitido como sócio livre.
Em 31 de maio de 1790 casou-se com Narcisa Emilia O’Leary. Foi convidado a participar da Missão Científica à Europa instruída pelo Ministro dos Estrangeiros e da Guerra, Luis Pinto Souza. Antes de sua partida ofereceu à Academia Real das Ciências de Lisboa um trabalho intitulado A Memória sobre a pesca das baleias, uma dos primeiros trabalhos com preocupação ecológica, onde fez referência à prática perniciosa da caça aos baleotes, pois as baleias só reproduzem a cada dois anos.
Em Paris fez o curso de Mineralogia e Química com Dr. Antoine Fourcroy e o curso de Mineralogia, na Escola Real de Minas, com o Professor Duhamel. Foi também discípulo de René Just Hauy, fundador da Cristalografia, que cita o trabalho de José Bonifácio Memória sobre os diamantes do Brasil, escrito em co-autoria com seu irmão Martim Francisco, e apresentado à Sociedade de História Natural de Paris, para a qual foi eleito em 1791. Nesse trabalho relatava o melhor modo de encontrá-los e garimpá-los. José Bonifácio teve também contatos com Lavoisier e Antoine Lourenço Jussier, com quem estudou Botânica.
Após seus valiosos estudos na França partiu para a Alemanha. Na cidade de Freiberg, na Saxônia, estudou com o geólogo alemão Abraham Werner. Ainda nessa cidade assistiu às aulas de Química de Freisleben e Klotsch e de Metalurgia de Lampadius. Nessa época fez amizade com o conhecido Barão von Humboldt. Suas viagens profícuas pela Europa continuaram e fez pesquisas no Tirol, ao norte da Lombardia. Assistiu em Pávia às conferências de Alexandre Volta que alguns anos depois construiria a pilha que leva o seu nome.
Em 1796 foi para Uppsala, na Suécia, com o intuito de conhecer as coleções de Bergman, criador da classificação química dos minerais. Foi admitido como membro da Real Academia de Ciências de Estocolmo. Essa foi a fase mais importante de sua carreira, pois com o conhecimento adquirido com Werner, deixou de ser um estudante e tornou-se um cientista. Passou a estudar fósseis e pesquisar as jazidas e minas de Arandal, Sahia, Krageroe e Laugbansita, na Suécia e na Noruega, onde relatou as quatro espécies e as oito variedades de minerais que seriam a base de sua reputação como dos mais cultos da especialidade. Na atualidade dois desses minerais apresentam grande valor industrial, como o Espodumênio, utilizado nos cinescópios dos televisores e a Criolita, utilizada como fundente na fabricação do alumínio.
Em 1880 retornou a Portugal cercado de toda a admiração e respeito pelos portugueses, que se sentiam orgulhosos por sua cultura e sabedoria. Fez uma viagem mineralógica por Portugal e publicou um trabalho de valor inestimável para o desenvolvimento dessa atividade. Em 15 de abril de 1801 foi instituída na Universidade de Coimbra a cátedra de Metalurgia para que José Bonifácio pudesse dar formação de elite nessa matéria, até então com pouco valor na metrópole. A Carta Régia de 18 de maio de 1801 nomeou-o membro do Tribunal de Minas e Intendente Geral das Minas e Metais do Reino. Em 1802 foi empossado como secretário da Academia Real das Ciências de Lisboa e esta passou a ter um ritmo mais dinâmico e atuante. Nos dias 5 e 20 de junho de 1802 recebeu os diplomas de doutor, nas Faculdades de Direito e Filosofia, sendo dispensado das teses e exames, por seu notório conhecimento. Em 12 de novembro do mesmo ano assumiu a diretoria do Real Laboratório da Casa da Moeda de Lisboa, reestruturando e reaparelhando o órgão para os trabalhos de metalurgia, além de ministrar aulas da matéria.
Durante vários anos o trabalho de José Bonifácio foi árduo e com remuneração muito reduzida. No entanto o que lhe causou mais tristeza foi a burocracia que emperrou o crescimento de Portugal e, por conseguinte, do Brasil. Em 1897, Napoleão invadiu a Península Ibérica e a família real transferiu-se para o Brasil. José Bonifácio resolveu ficar e recebeu a patente de major, combatendo com galhardia as tropas invasoras do General Junot, até sua expulsão, sendo promovido a tenente-coronel.
O desejo de retornar ao Brasil foi grande. Pouco antes do seu retorno propôs a criação da Universidade do Brasil que deveria se instalar em São Paulo. Seu passaporte foi expedido em 19 de agosto de 1819 e partiu para o Rio de Janeiro, depois de uma ausência de trinta e seis anos. Seguiu depois para Santos onde foi recebido com demonstrações de carinho e amizade.
Ainda na Europa fizera amizade com o Barão de Eschwege, a quem revelou não querer se envolver com política. Sabemos que tal intenção não se consumou. Fez uma viagem mineralógica pela Província de São Paulo, que seria de vital importância para a exploração de minérios, principalmente do ouro, no Brasil.
Outras viagens técnico-científicas foram realizadas até que em 1821 assumiu a chefia da Província de São Paulo, tendo início a sua vida política que todos os brasileiros conhecem. Às três horas da madrugada do dia 6 de abril de 1838, no bairro de São Domingos, em Niterói, o velho cientista, filósofo e estadista morreu serenamente.

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